segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Novos passos, Nonato e os gatos de minhas sete vidas

Consumi a sola de minha sandália de couro comprada no mercadinho confeccionada pelo velho migrante Nonato, artista marginal, fora de época como eu, que já gastei meu tempo de criar gatos de sete vidas. Meu bicho preguiça de estimação agora é camelo. Eu que vivo, viva nesse imenso deserto de mim que tu construiu com a minha acedência. Do que vale escrever agora esse meio quilo de lamentação. Nem sei como posso dizer isso, se sempre fui vista como boa moça de família. E assim criei meus sete filhos, alguns imaginários como tu. Outros paridos, pelas minhas partes à parte. Mas paro aonde vai meu grito? Se tu é descomposto de audição. Apelei para os outdoors pagos à metro quadrado e a chuva displicente descolou o aviso antes de tua chegada. Era aquela chuvarada variante de dias quente de verão. Não me importa, o que eu quero saber é onde deixei meus passos, passos lentos, ou aligeirados pelos espinhos que entranham minha carne, morta. Hum, morta? Como morta se ela se faz trêmula ao lembrar-se que teus olhos furtam-se da luz. Apelarei para o contato pele a pele, te darei abraços, afagos. E para que? Se a dormência te corrompes? Oh sim, minhas sandálias de couro cru, fétidas molhadas pela chuva empoçada nas calçadas baixas por onde piso me são companhia certas de tempos insanos. Devo desistir de certo, se faz certo. Ledo engano ainda atiço teu tempo com aguas de colônia barata, proveniente do mercado central ou de uma bodega da grande rua. E com brevidade lembro que já não alcanças ligar o botão do teu olfato. Faço o caminho, agora em tua boca salivada e te acordo de sono profundo. E a luz se acende ao fim do túnel...E além disso, procuro saber onde deixei meus passos? Guia-me. Faz-se necessário.

3 comentários:

Gonzo Sade disse...

Emocionou-me, cara Babaçu!

Rosana Barros disse...

Lindo texto meu bem. Romântico e profundo como seu modo de ser.

vaguinho disse...

Parabéns pelo seu belo Post Belas palavras, São essas palavras q se unem e formão um verdadeiro conto ... Palavras essas q são sinceras, palavras do coração...