quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Qunto nós merecemos?

Veja
Edição 1935
14 de dezembro de 2005


Quanto nós merecemos?

O ser humano é um animal que deu errado em várias coisas. A maioria das pessoas que conheço, se fizesse uma terapia, ainda que breve, haveria de viver melhor. Os problemas podiam continuar ali, mas elas aprenderiam a lidar com eles.
Sem querer fazer uma interpretação barata ou subir além do chinelo: como qualquer pessoa que tenha lido Freud e companhia, não raro penso nas rasteiras que o inconsciente nos passa e em quanto nos atrapalhamos por achar que merecemos pouco.


Pessoalmente, acho que merecemos muito: nascemos para ser bem mais felizes do que somos, mas nossa cultura, nossa sociedade, nossa família não nos contaram essa história direito. Fomos onerados com contos de ogros sobre culpa, dívida, deveres e… mais culpa.
Um psicanalista me disse um dia:
– Minha profissão ajuda as pessoas a manter a cabeça à tona d’água. Milagres ninguém faz.
Nessa tona das águas da vida, por cima da qual nossa cabeça espia – se não naufragamos de vez –, somos assediados por pensamentos nem sempre muito inteligentes ou positivos sobre nós mesmos.
As armadilhas do inconsciente, que é onde nosso pé derrapa, talvez nos façam vislumbrar nessa fenda obscura um letreiro que diz: “Eu não mereço ser feliz. Quem sou eu para estar bem, ter saúde, ter alguma segurança e alegria? Não mereço uma boa família, afetos razoavelmente seguros, felicidade em meio aos dissabores”. Nada disso. Não nos ensinaram que “Deus faz sofrer a quem ama”?
Portanto, se algo começa a ir muito bem, possivelmente daremos um jeito de que desmorone – a não ser que tenhamos aprendido a nos valorizar.
Vivemos o efeito de muita raiva acumulada, muito mal-entendido nunca explicado, mágoas infantis, obrigações excessivas e imaginárias. Somos ofuscados pelo danoso mito da mãe santa e da esposa imaculada e do homem poderoso, pela miragem dos filhos mais que perfeitos, do patrão infalível e do governo sempre confiável. Sofremos sob o peso de quanto “devemos” a todas essas entidades inventadas, pois, afinal, por trás delas existe apenas gente, tão frágil quanto nós.
Esses fantasmas nos questionam, mãos na cintura, sobrancelhas iradas:
– Ué, você está quase se livrando das drogas, está quase conquistando a pessoa amada, está quase equilibrando sua relação com a família, está quase obtendo sucesso, vive com alguma tranqüilidade financeira… será que você merece? Veja lá!
Ouvindo isso, assustados réus, num ato nada falho tiramos o tapete de nós mesmos e damos um jeito de nos boicotar – coisa que aliás fazemos demais nesta curta vida. Escolhemos a droga em lugar da lucidez e da saúde; nos fechamos para os afetos em lugar de lhes abrir espaço; corremos atarantados em busca de mais dinheiro do que precisaríamos; se vamos bem em uma atividade, ficamos inquietos e queremos trocar; se uma relação floresce, viramos críticos mordazes ou traímos o outro, dando um jeito de podar carinho, confiança ou sensualidade.
Se a gente pudesse mudar um pouco essa perspectiva, e não encarar drogas, bebida em excesso, mentira, egoísmo e isolamento como “proibidos”, mas como uma opção burra e destrutiva, quem sabe poderíamos escolher coisas que nos favorecessem. E não passar uma vida inteira afastando o que poderia nos dar alegria, prazer, conforto ou serenidade.
No conflitado e obscuro território do inconsciente, que o velho sábio Freud nos ensinaria a arejar e iluminar, ainda nos consideramos maus meninos e meninas, crianças malcomportadas que merecem castigo, privação, desperdício de vida. Bom, isso também somos nós: estranho animal que nasceu precisando urgente de conserto.
Alguém sabe o endereço de uma oficina boa, barata, perto de casa – ah, e que não lide com notas frias?

Lya Luft é escritora

sábado, 21 de novembro de 2009

Pousada de Todos os Santos


Homem Natureza


segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Estrada do Arroz e suas paisagens povoadas


O tempo
Para quem lava suas angustias...
Para quem vive inesquecivéis momentos...
Para quem envelheceu pelo tempo...
Para quem passou de passagem.

Tempo  estrada!
Tempo ponte!
Tempo vida!
Tempo passado presente!
O tempo e o rio...
O rio e o tempo
correm....
nos pés das crianças
Na saudade dos velhos
Na esperança de alguns

O tempo e o rio
Correm, correm, correm.


Texto e fotos: Vanusa Babaçu


Povo Àwa - Certeza Incerta


Fotos: Diego Janatã



foto: Diego Janatã



Povo Awá – Certeza incerta


             Estive nesse final de semana na aldeia juriti, do povo Awá-Guajá na Terra Indígena Awá. Nessa aldeia vivem cerca de 40 índios Awá, como se autodenominam, termo que significa “homem”, “pessoa” ou “gente”. E “gente” é como se sente quem, de alguma forma, tem contato com esse povo. Parece-me que aqui, o conceito e a relação etnocêntrica toma um outro sentido, ou melhor, tem duas direções. Se desloca do eu para o não-eu. É na relação com o outro que me torno “mais gente”. Pois foi assim que me senti, e também me dei conta do quanto nos distanciamos de nossa natureza humana, ou de nossa essência verdadeiramente humana. Parece ser essa a linda missão dos Awá nessa terra.

            Num certo momento de nossas andanças na floresta, deparamo-nos com uma índia Awá com sua aparência já idosa, que vestia apenas uma saiota que tampava somente suas genitálias, ao nos avistar, tampou suas narinas com as mãos e se distanciou. Aquele gesto me tocou profundamente, pois a sua casinha, o “tapiri”, feita somente de palha, com uma rede armada e uma fogueirinha que ainda fumaçava, ao nosso olhar, mediado por outros valores, ou des-valores, via-se ali um sinal de primitividade, do anti-higiênico, e pelo contrário, foi assim, que eu mesmo me vi. Olhei pra meu corpo e percebi um corpo carregado das mais variadas ameaças biológicas para a sobrevivência dos Awá. Conscientemente ou não, essa índia me fez, apesar do uso de colônias do Boticário, dos shampoos e hidratantes da Natura, “menos” pra me tornar “mais”.

               Athos do grego Athé, que coincidentemente é o nome de meu filho que significa “Inocência de espírito” é oportuno, se quisermos tentar caracterizar esse povo meigo, de um sorriso infantil. Uma inocência não passiva, ou seja, aquela inocência que faz parte da alma de um guerreiro, que sabe agir e reagir a qualquer tentativa de sua total anulação.

             Atualmente vivem na Pré-Amazônia brasileira, mas precisamente na região noroeste do Maranhão e constituem um dos últimos povos caçadores e coletores no Brasil. Além dos aldeados pela FUNAI, alguns ainda vivem na floresta, sem contato permanente com a sociedade regional, dentro das Terras Indígenas Alto Turiaçu, Araribóia e Caru segundo foram observados pelos Guajajara e Ka’apor, que também são do mesmo tronco lingüístico Tupi, resaltando aqui que este ùltimo povo os Ka’apor foram por muito tempo inimigos mortais dos Awá. Existindo períodos de guerra contra os Awá. Há também informações de grupos de Awá-Guajá mais distantes que se movem por uma série de serras e chapadas que ligam os estados do Maranhão, Tocantins, Piauí, Goiás, Bahia e Minas Gerais. Sendo que este eixo, tem servido como refúgio natural para os Guajá e já conduziu alguns indivíduos até Bahia e Minas Gerais.

              Povo esse que para viver sua autonomia, manteve-se por quase 500 anos sem contato com a tal “sociedade envolvente”.  No entanto, após contactados e demarcada uma área de reserva florestal que viesse garantir a sua reprodução física e cultural, vivem, hoje, um grande drama. Essa área foi e ainda está sendo invadida por grileiros, colonos e fazendeiros ligados a grandes grupos agropecuários dos estados do Pará e Maranhão.  E como de costume por aqui, grupos esses, por sua vez, ligados a madeireiros e políticos da região. Como se vê no noticiário:
        “O presidente do Tribunal Regional Federal (TRF) da 1ª Região, Jirair Aram Meguerian suspendeu a decisão judicial emitida pelo  juiz José Carlos Madeira, da 5ª Vara Cível da Justiça Federal no Maranhão, que obriga a empresa Agropecuária Alto Turiaçu Ltda, do Grupo Schahin – assim como todos os ocupantes não-índios –, a retirar-se da Terra Indígena Awá-Guajá.
A suspensão, ocorrida em 23 de outubro, atendeu pedido da Prefeitura Municipal de Zé Doca, alegando que a retirada iria prejudicar economicamente a região. Porém, o caso não termina assim, pois o Supremo Tribunal Federal ainda vai julgar os recursos sobre a decisão da Justiça Federal, e a partir daí os invasores terão um prazo de seis meses para sair da área.” (jornal vias de fato).
Recebi essa notícia logo no domingo à noite, ao chegar da aldeia juriti. Uma tristeza profunda me tomou conta. Mas como diz a estrofe da música “A Bandeira” de Ivan Lins:
“Que o perdão seja sagrado
Que a fé seja infinita
Que o homem seja livre
Que a justiça sobreviva “

              Que o Estado de Direito não possa continuar a serviço do capital. Pois, historicamente em nosso país, tem-se travado uma luta entre os que lutam por seus direitos e do outro lado os que buscam os seus interesses. Até quando!
              Vivemos aqui, um Estado sem o Estado. É a lei do Capital, que é sinônimo de miséria, violência e fome, a negação da vida.
Mas que possa prevalecer a VIDA!
Viva os Awá-Guajá! Para que possa viver a HUMANIDADE, ou pelo menos o que ainda há de HUMANO entre nós.
Que @ Grande Maíra proteja os Awá-Guajá.
* Cleidson Pereira Marinho
*Estudante do Curso de Licenciatura em Educação do Campo - Ciências Agrárias da UFMA e colaborador da FUNAI-CPTI na Operação Arco de Fogo.



quarta-feira, 11 de novembro de 2009


segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Povo indígena AWA-GUAJÁ

SANTA INÊS-MA, 08 DE NOVEMBRO DE 2009


FOTO: JORNAL VIAS DE FATO


Prezad@s Cidadãos e Cidadãs,

Acabei de chegar de uma visita de trabalho na aldeia indígena Juriti da etnia AWA-GUAJÁ, que é uma das três aldeias do povo AWÁ-GUAJA do Maranhão, BRASIL e quiçá do mundo. É um povo ainda quase totalmente natureza. São pessoas risonhas, ternas, carinhosas e de uma pureza infantil. São hábeis caçadores e já plantam mandioca da qual produzem a farinha d’água, seu principal alimento depois da caça e das frutas. São frágeis ao contado com o não-índio pois tem baixíssima imunidade às nossas doenças, principalmente viroses.

Pois bem, este povo, protótipo original de brasilidade está literalmente encurralado em uma pequena porção de terra – a terra AWÁ – que faz confluência com os municípios de São João do Caru, Zé Doca e Newton Belo.

Pasmem meus nobres, os principais perseguidores deste povo altamente vulnerável e infelizmente, dado ao estágio de limitação de suas terras, extremamente dependente dos poderes públicos, são exatamente na esfera local os prefeitos e vereadores destes municípios, que na quase totalidade são grileiros, madeireiros e representantes dos interesses de seus comparsas fazendeiros, empresas mineradoras e madeireiras. A terra AWÁ está totalmente invadida por madeireiros que fazem estradas, detonam a floresta, matam e afugentam os animais, transformando a vida nas comunidades indígenas em um martírio desolador que ameaça de extinção um povo que tenda se esconder pra sobreviver a mais de 500 anos nas terras brasileiras.

Eu penso que a Justiça brasileira não pode continuar se prestando ao serviço de advogar em prol dos interesses unicamente do capital, menos ainda quando tais interesses são explicitamente escusos e alicerçados em atividades criminosas. Não podemos admitir que interesses politiqueiros de jagunços e corruptos se sobreponham à ética e aos direitos humanos. O Estado de Direito precisa se manifestar e fazer reinar a justiça. VIDA AOS AWÁ-GUAJÁS! PROTEÇÃO ÀS SUAS TERRAS! PUNIÇÃO E CADEIA AOS CRIMINOSOS E DEVASTADORES DAS VIDAS!


Sou Manoel Pinto Santos – colaborador da “Operação Arco de Fogo”
 

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